quinta-feira, 7 de julho de 2011

Até quando vai continuar a hipocrisia contra o beijo gay na TV?

Muita gente critica aqueles que assistem as novelas no Brasil, como se estas não fizessem parte da cultura do povo brasileiro, ainda refletindo, muitas vezes, situações que vivenciamos em nosso cotidiano. Muitos dos temas abordados tratam de formas sérias, nem tão sérias e, as vezes, caricaturadas dos nossos inúmeros problemas sociais, dos anseios por melhorias socioeconômicas, além claro, do sonho de todos que ainda acreditam num grande e verdadeiro amor - o clássico conto de fadas. A TV Globo, neste sentido, penso que cumpre com louvor o seu papel.

Nos últimos anos vimos acompanhando uma crescente abertura, nas novelas de forma geral, mas principalmente nas novelas globais, da discussão de temas relacionados com a população LGBT, claro que refletindo sobretudo as crescentes pressões dessa camada da sociedade que históricamente sofreu - e ainda sofre - com diversos tipos de violências e com o não acesso aos direitos sociais e civis. 


Foto: TV Globo, Divulgação.

Tal abertura e visibilidade na mídia, atualmente já colhe frutos. Direta ou indiretamente, a TV Globo ajudou a criar um espaço para debate na sociedade que há décadas atrás seria inimaginável. A vinculação entre mídia e as questões LGBTs adquire por vezes apoio popular e outras vezes cria grandes polêmicas nacionais, com repercussões em forma de milhares de comentários nas redes sociais que evidenciam e escancaram as expressões mais contundentes de preconceito e homofobia.   

A TV Globo sem sombra de dúvidas teve papel de destaque nesse princípio de mudança societária, o qual recria costumes, a moral e os valores de uma sociedade ainda bastante influenciada pelo patriarcalismo, pela religiosidade, pelo machismo e pelo sentido de secundariedade da imagem do feminino.

Até agora e intencionalmente não citei nomes de novelas onde homossexuais tiveram destaque, este não é o objetivo central deste texto. Entretanto, vale a pena destacar a atual polêmica gerada em torno da novela Insensato Coração, da TV Globo, a qual causou certa curiosidade ao ser anunciada com a aparição em cena de vários personagens homossexuais. Do caricato ao advogado que sonha em encontrar o Bofe ideal, passando pelo típico cara que está descobrindo sua orientação sexual, ao total são seis personagens gays na novela.

A partir daqui, justamente desta curiosidade, é que surgiu meu interesse em escrever este texto. Já há algum tempo vemos diversas novelas tocarem no assunto da homossexualidade, nos inúmeros temas relacionados à LGBTs, contudo, mesmo ao tratar abertamente sobre o assunto, ainda verificamos que existe um grande tabu por ultrapassar - O beijo Gay nas novelas.

Ano após ano, em cada novela onde aparece um personagem ou casal gay, o debate se reinicia, as apostas se fazem presente, o burburinho alcança cada conversa de esquina em cada canto do Brasil - "E então, vai haver ou não o beijo gay?"

É engraçado a contradição colocada pela TV Globo quando, ao mesmo tempo que é um meio difusor em âmbito nacional de idéias, moda, comportamento e atitudes, entre outras coisas, influenciando direta e indiretamente todas as camadas da população, de forma democrática, atingindo o rico e o pobre, ainda assim, mantém laços de conservadorismo que não condizem com seu atual mercado consumidor, nem mesmo com as crescentes mudanças de comportamento e pensamento da sociedade brasileira.


Ao não exibir um ato (o beijo gay) que em sí, não carrega a solução para os problemas que afligem a população homossexual brasileira, tampouco reflete um posicionamento de defesa, ou mesmo uma possível forma de propaganda da homossexualidade como algo bom que deva ser imitado ou vivenciado por todos (numa mera reprodução hosmótica  - como se as pessoas não tivessem idéias próprias), um modismo de consumo; a Rede Globo deixa apenas de ser didática, demosntrando que as formas de amar e/ou amor são diversas, que a sexualidade humana extrapola os limites da heterossexualidade/heteronormatividade, que o respeito pelo outro vem em primeiro lugar independente de nossas concepções morais/religiosas.


A novela Insensato Coração segue com a novela do não mostrar, não mexer no assunto, desde já - como divulgado na mídia - o casal gay formado pelos atores Rodrigo Andrade (Eduardo) e Marcos Damigo (Hugo), virou asusnto proibido entre os autores da novela, Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Além da retirada de cenas consideradas mais picantes entre o romance, o silêncio passou a ser a ferramenta para levar o  affair adiante na trama das 21h.


Foto: TV Globo, Divulgação.
  Enquanto isso, tratando o assunto de forma meramente concorrencial, com finalidade apenas de aumentar a audiência, o SBT, causou um verdadeiro frisson com a exibição do primeiro beijo lésbico da história da TV brasileira. O beijo entre as personagens Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Gisele Tigre) somou alguns pontos a mais na convalescente trama da novela "Amor e Revolução". No entanto, a prova mais do que cabal do conservadorismo e, porque não dizer, do preconceito ainda existente por trás das grandes produções das novelas no Brasil, é que o SBT voltou atrás e vetou um segundo beijo, dessa vez entre um casal gay na mesma novela.
Foto: SBT, Divulgação.



 A pergunta que não quer calar, "Até quando vamos esperar para podermos ver, em rede nacional, o primeiro beijo gay da televisão aberta no Brasil? Oras, os tempos são outros, recentemente o Supremo Tribunal Federal - STF decidiu que a união estável entre pessoas do mesmo sexo está juridicamente reconhecida no Brasil, tendo sido aprovada com maioria expressiva dos votos dos ministros. Tal fato já trouxe efeitos jurídicos positivos para a comunidade/população LGBT, especificamente para gays e lésbicas. Direitos antes restritos a casais heterossexuais como pensão, herança, regulamentação da comunhão de bens e previdência, agora são também comuns aos cidadãos homossexuais. Além disso, a decisão do supremo abriu uma brecha que na justiça que facilita a adoção de crianças por duas pessoas do mesmo sexo, reconhecendo-os então como família gays que possuem filhos adotivos, mesmo este tema não estando especificamente descrito na Constituição Brasileira.

Outro efeito positivo da aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo é que, no dia 27 de junho, o juíz Fernando Henrique Pinto, deferiu a conversão de uma união civil estável de um casal do mesmo sexo num casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. O primeiro casamento civil gay do país ocorreu na cidade paulista de Jacareí, tendo sido seguido por mais um par de decisões do mesmo tipo no resto do Brasil. Tal decisão, em termos legais, sofre o risco de ser derrubada em instâncias superiores, no entanto, o casal identificado como Sergio Kauffman Sousa e Luiz André Moresi, afirmaram que caso ocorra este fato, recorrerão da decisão no Supremo Tribunal Federal.

Como vemos, o quadro social e jurídico brasileiro, mudou de alguns anos até agora e continuará em processo de mudanças por um largo tempo. Como a dinamicidade da sociedade é algo presente e que afeta e repercute nos demais setores da sociedade, sejam eles políticos, culturais, econômicos e sociais, não é difícil prever também uma mudança ainda maior com relação ao que assistimos diariamente em nossas casas, através da TV.

Penso que, por mais coservadora que a mídia seja em alguns setores, como neste caso específico, a exibição do beijo gay em rede nacional, seja pela TV Globo, seja por outras emissoras, não demorará para virar fato histórico. Justamente pelo fato de existirem pressões criadas pela sociedade, por seus diversos segmentos populacionais, a exemplo de gays, lésbicas, portadores de deficiência, HIVs positivos, negros, sem terra, entre diversos outros.


Até quando a TV Globo continuará com sua hipocrisia e exitará em exibir tal beijo é uma pergunta até agora sem respostas, teremos que esperar num breve futuro que outro casal gay de novela venha a ter a repercussão devida para que a cúpula da emissora venha a mudar seu posicionamento. Até que isso ocorra nos resta torcer por mais um final feliz. Afinal, "A vida imita a arte ou é a arte quem imita a vida?".


Leonidas Leal




  

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